|
|
Era uma vez uma cidade nascida do lápis, com ruas e avenidas quadriculadas, esquadrinhadas, para abrigar fontes, praças, teatros, parques. Mestre do desenho, Niemeyer veio arredondar prédios, Igreja e Cassino, duplicando-os nas águas da recém-criada Lagoa da Pampulha. Acima, jatos trouxeram e levaram arquitetos e artistas para outras geometrias. Estilos Art Decô, Nouveau, Neoclássico mais o Manuelino, predominantes, finalizaram o miolo da capital. Animada, BH é palco de músicos, escritores, grafiteiros, poetas, anônimos. Farta, abriu seus horizontes a italianos, franceses, paulistas, sírios, libaneses . Moderna, estufou prédios, preservou casarios e como grande obra não póstuma, concebeu o cemitério mais vivo que já se viu, um grande livro de esculturas em bronze, museu a céu aberto, o Cemitério do Bonfim. Vanguarda, Belo Horizonte é um pouco recorte, colagem Ouropretana nas ladeiras, cinematográfica nas artes de Humberto Mauro, Roseana, cercada por veredas de fazendas intactas, ainda do Ciclo do Boi ou do Couro. Coberto de bares, mercados, bancos, cafés e empórios, o centro mistura tribos indígenas a estados brasileiros. É fácil chegar à rua Tamoios na altura de Rio de Janeiro, ou Tupis com Espírito Santo ou mesmo Caetés e Bahia. Neste centro nervoso misturam-se negócios diurnos com o bafo alcoólico da véspera e o balanço matreiro das donas, tomando o ônibus para casa ou para o trabalho. E onde quer que se esteja, em qualquer ladeira ou plano sinuoso da cidade, acima, o por do sol confere um clarão único - tornando os habitantes personagens da luz. Um horizonte contemporâneo, entrecortado, com aeronaves insones e fantasmas perfumados, a cidade planeja o cenário do Festival Internacional de Quadrinhos. Com sua capacidade de síntese e verve de centenária, no céu de BH podemos divisar dois personagens, um alto e magrelo, outro baixinho e gordo. É o Fradim, padroeiro do mais fino humor, corrosivo, indispensável, e sua fiel companheira Graúna, cheia de graça Ave Henfil. Arnaldo Augusto Godoy |
||||||||